A Saga do Sem-Sepulcro
Crônica da Grande Invasão, da febre de inverno ao fim do Lich, como a guardam os que cuidam da Última Chama.
Prólogo: a febre de inverno
No extremo norte dos reinos havia uma torre de pedra cinzenta. Nela vivia o maior mago que o mundo já conheceu. Chamavam-no Mestre Orvan.
Reis mandavam os filhos para estudar com ele. Poucos aguentavam o primeiro inverno. O vento uivava nas janelas estreitas, a lenha era contada, e as lições começavam antes do sol.
Valdren aguentou todos. Chegou à torre aos doze anos, sem família e sem nome de casa. Trazia só uma trouxa de roupa e uma fome de aprender que assustava os outros alunos. Aprendia mais rápido que qualquer um antes dele. Orvan nunca tivera um herdeiro de magia. Passou a ver o menino como um.
Na torre também vivia Maelis, a filha de Orvan. Cuidava da biblioteca, colava lombadas soltas e ria dos feitiços que davam errado. Valdren se apaixonou por ela antes de saber o nome do que sentia. Ela também se apaixonou por ele. Durante anos, a torre teve três vozes: a do mestre, a do aluno e o riso de Maelis entre as estantes.
No vigésimo inverno de Valdren na torre, veio a febre.
Não foi maldição. Não foi guerra. Foi só uma febre, dessas que levam gente toda estação. Orvan tentou tudo o que sabia. Ferveu raízes, leu tratados, passou noites sentado ao lado da cama. Maelis morreu numa madrugada sem vento.
Orvan chorou a filha e a enterrou. Depois disse ao aluno:
— A morte não é um inimigo. É a última página. Nenhum mago reescreve a última página.
Valdren não respondeu. Naquela noite, desceu aos arquivos proibidos da torre.
Levou três anos. Estudou a necromancia que Orvan havia trancado a sete chaves. Aprendeu a segurar uma alma antes que ela partisse. Construiu um relicário de vidro escuro para guardá-la. Quando o ritual terminou, a alma de Maelis brilhava fraca dentro do Relicário Negro.
Mas Valdren, sem querer, tinha prendido a própria morte junto. Não envelhecia mais. Não sangrava mais.
Orvan descobriu tudo numa noite de tempestade. Viu o relicário. Viu o brilho da filha preso nele. E viu nos olhos do aluno algo que já não era humano. Expulsou-o da torre. Foi a única vez na vida em que Orvan levantou a mão contra alguém que amava.
Valdren partiu para o norte gelado, para além de onde os mapas terminam. Levou o Relicário.
Passaram-se décadas. Orvan envelheceu. Os reinos esqueceram o aluno brilhante. E Valdren, sozinho no gelo, descobriu a verdade que o levaria à guerra: para dar a Maelis um corpo e uma vida de novo, não bastava uma alma. Era preciso vida. Muita vida. A vida de reinos inteiros.
Num inverno sem aviso, ele voltou. Já não se chamava só Valdren. Os poucos que o viram e sobreviveram o chamavam de o Sem-Sepulcro: aquele que a terra se recusa a receber.
A Última Chama
Muito antes de Orvan, antes de os reinos terem os nomes que têm hoje, uma ordem mantinha um fogo num templo ao norte. Não era um fogo comum. Os guardiões diziam que ele era feito de vida que se recusa a morrer. Eles se chamavam Guardiões da Brasa.
O templo caiu séculos atrás, numa guerra que ninguém mais lembra. As terras ao redor apodreceram e viraram o que hoje se chama Terras Mortas.
Nem todos fugiram. O Primeiro Guardião se recusou a abandonar o altar. Ficou, e o fogo negro o consumiu.
Uma única guardiã escapou. Carregava uma brasa numa caixa de ferro, enrolada em panos, junto ao peito. Andou para o sul até encontrar uma encosta escondida, ao sul de onde hoje fica a vila de Frosthollow. Ali acendeu um novo santuário.
A ordem foi minguando a cada geração. Os aprendizes ficaram raros, depois sumiram. Quando a Grande Invasão começou, só restava Hestra: uma mulher de cabelos brancos e mãos queimadas, que alimentava o fogo havia mais de quarenta anos e nunca tinha visto o templo original.
O que Hestra sabia era simples.
A necromancia de Valdren não toca a Chama.
E quem morre lutando contra a morte, a Chama traz de volta.
O mistério do retorno
Ninguém sabe explicar como acontece. Os guardiões antigos talvez soubessem. Hestra só sabe o que viu.
Um guerreiro cai na neve, longe dali. Horas depois, ele abre os olhos deitado nas pedras quentes ao redor do fogo. Tem o cheiro de lenha nas roupas e a memória da luta inteira. Às vezes acorda gritando. Às vezes acorda em silêncio. Hestra está ali, sempre, com uma caneca de algo amargo e quente.
Não é todo morto que volta. Os aldeões de Frosthollow não voltaram. Os soldados de Valemont não voltaram. A Chama só chama de volta quem caiu enfrentando aquilo que nega a morte. Hestra diz que é o fogo reconhecendo os seus.
Os que voltam não ficam iguais. Lembram da dor. Lembram do frio. E mesmo assim levantam e saem de novo pela encosta.
As brasas
Tudo o que Valdren corrompe carrega um pedaço de vida roubada, uma fagulha que ele arrancou de alguém. Quando a criatura morre, a fagulha se solta. Flutua no ar como uma faísca perdida, procurando o caminho de volta para a Chama.
Quem luta ao lado do fogo sente essas fagulhas passarem pelo corpo. Elas aquecem. Dão força. Cada brasa recolhida é um pedaço de vida devolvido ao mundo.
Hestra diz que é por isso que a Chama cresce um pouco a cada terra libertada.
Os que a Chama encontrou
Nenhum deles foi herói de canção. Eram sobreviventes, desertores e gente que tinha perdido tudo e decidiu revidar. A Chama os encontrou um a um.
Os quatro primeiros chegaram ao santuário quase juntos, na mesma semana em que Frosthollow queimou.
Brannok, o anão, ferreiro de Kael-Dum, estava na vila vendendo aço quando a horda chegou. Segurou o portão sozinho por uma noite inteira e só recuou quando o portão não existia mais.
Sylwen, a elfa, batedora de Lirendel, tinha sido mandada ao norte para vigiar a horda. Viu animais andando com os olhos mortos. Decidiu não voltar para casa com um aviso. Ficou para lutar.
Edric, o último aprendiz de Mestre Orvan, seguia o rastro do mestre. Orvan tinha partido sozinho para o norte, deixando um bilhete: "Não me siga." Edric seguiu.
Rowan, o meio-elfo, guardião do Bosque de Elarwen, ouviu os primeiros lobos amaldiçoados gritarem por dentro quando entraram no bosque. Para ele, cada animal corrompido era um amigo envenenado.
Outros viriam depois. Esta crônica conta como.
Livro I — A Grande Invasão
No começo, ninguém falava em Lich.
Falava-se em horda. Goblins e orcs, que se odiaram por mil anos, desciam juntos das montanhas do norte. Ninguém entendia como tinham feito as pazes. Mais tarde se soube: alguém lhes prometeu terra. E alguém lhes ensinou a ter medo.
Falava-se também em bichos que não morriam direito. Corujas que caçavam de dia. Ursos que não sentiam lança. Linces de olhos vazios. Esses não eram obra da horda. Eram obra de outro.
Capítulo 1 — Frosthollow
Frosthollow era uma vila de fronteira. Casas de madeira escura, um moinho, um campanário, uma ponte sobre o riacho congelado. Vivia de caça e de comércio com os viajantes do norte.
Foi a primeira a cair.
A vila ainda fumegava sob a neve na manhã seguinte. Hestra apontou o vale lá de cima da encosta.
— Frosthollow caiu ontem. Talvez ainda haja alguém vivo.
Entre as casas queimadas, goblins saqueavam o que tinha sobrado. Um troll guardava a ponte. Uma coruja enorme vigiava do alto do campanário. Um urso branco dormia no meio da praça, sobre a neve suja de cinza. Um lince seguia cada passo dos que entravam, sem nunca aparecer por inteiro.
No moinho, cercado de fogueiras verdes, um orc velho cantava. Era Grokh, o xamã. Ele cantava para os mortos, e os mortos respondiam.
Quando Grokh caiu, uma voz saiu da garganta dele. Não era a voz do orc. Era fria e educada.
— Isto é só o primeiro inverno.
Depois, silêncio. Do fundo de um poço, uma moça subiu com duas facas de esfolar nas mãos. Chamava-se Kaya. Era filha do caçador da vila. Tinha passado a noite inteira na água gelada, ouvindo a vila queimar. Não chorou. Perguntou só para que lado a horda tinha ido.
Capítulo 2 — O Bosque de Elarwen
O bosque sagrado de Rowan estava apodrecendo de dentro para fora. As árvores gemiam. A casca soltava em placas moles. Esporos cinzentos flutuavam no ar como neve suja.
Lobos amaldiçoados corriam entre os troncos. Javalis de espinhos rasgavam o chão. Vespas cinzentas zumbiam em nuvens.
No coração do bosque estava Vereth, a Árvore-Mãe. Por mil anos ela tinha abrigado os druidas de Elarwen. Agora estrangulava tudo o que se aproximava.
Rowan pediu para enfrentá-la sozinho. Ninguém deixou.
Quando Vereth caiu, o bosque inteiro ficou em silêncio. Nas raízes dela, Rowan encontrou uma única semente verde, ainda viva. Guardou-a num saquinho de couro, junto ao peito, e não falou sobre isso com ninguém.
Capítulo 3 — Os Picos de Vidrogelo
A horda subiu a montanha atrás de alguma coisa.
O gelo dos Picos de Vidrogelo não é branco. É azul-escuro, quase negro nas sombras, e cristalino como vidro. Dentro dele há formas: gigantes antigos, congelados de pé, de olhos abertos.
Um deles tinha acordado. Jarl Hrimgar, gigante de gelo, dormia havia séculos. Valdren o despertou com uma promessa:
— Seu povo voltará a caminhar.
Hrimgar lutou para cumprir essa promessa. Lutou bem. Ao cair, olhou para os irmãos ainda presos no gelo e entendeu que nenhum deles ia acordar. Tinha sido enganado. O gelo da montanha rachou junto com ele, de cima a baixo, com um som que se ouviu em Frosthollow.
Capítulo 4 — Os Campos de Cinza
A planície ao sul virou o acampamento da horda. Um mar de tendas, fumaça e máquinas de guerra. A grama tinha queimado até a raiz.
Goblins sapadores abriam túneis. Orcs passavam montados em lobos. Ogros puxavam torres de cerco. No centro de tudo, Skritch, o Rei Goblin, comandava de cima de uma Máquina de Guerra que andava sobre seis pernas de ferro.
Skritch não era cruel. Era ganancioso. Queria a terra prometida, e queria mais do que a parte dele.
Quando a máquina explodiu, uma engenheira goblin assistia de longe. Ela tinha ajudado a construir aquelas catapultas. Dias antes, tinha visto o próprio irmão virar um morto que ainda andava. Chamava-se Nix. Naquela noite, pôs a mochila de parafusos nas costas e subiu a encosta em direção à luz. Levava consigo uma torreta que não parava de reclamar.
Capítulo 5 — O Pântano de Murkfen
Os trolls do pântano nunca tinham se aliado a ninguém. Agora tinham.
Murkfen fede a podre. A água é escura e quente. Cada sombra pode ser um crocodilo, e cada tronco pode ser um troll esperando. Sapos do tamanho de bois coaxam no nevoeiro. Sanguessugas sobem pelas botas.
Grisha, a Mãe-Troll, era tão velha quanto o pântano. Tinha trocado a lealdade dos filhos por uma promessa: nenhum troll morreria de novo.
Os que chegaram até ela descobriram uma coisa terrível. Metade da prole de Grisha já tinha sido levada pela maldição. Andavam ao lado dela com os olhos vazios. E ela não sabia.
Capítulo 6 — O Passo do Corvo
O desfiladeiro era a última porta da horda. Uma fortaleza escavada na rocha viva, com corvos amaldiçoados girando sem parar sobre as torres.
Lá dentro estava Kargul Quebra-Reinos, o orc que uniu as hordas. Enorme, coberto de cicatrizes, com uma coroa de ferro torto na cabeça. Lutava como alguém que acredita no que faz.
Quando caiu, Kargul riu com sangue na boca. E contou.
Tinha feito um pacto com um mago morto chamado Valdren. Terras para os orcs e os goblins, em troca de almas.
— A horda era só a foice — disse. — Ele é o ceifeiro.
Seu capitão, Gorran, estava ali e ouviu tudo. Ele tinha lutado de verdade, acreditando na terra prometida. Cravou o machado no chão.
— Nenhum orc honrado luta por um morto.
E mudou de lado.
No santuário, Kaya perguntou se ele tinha estado em Frosthollow. Gorran não respondeu.
Naquela noite, diante da Chama, Edric repetiu o nome em voz baixa. Valdren. Ele conhecia aquele nome. Era o aluno que Orvan nunca mencionava.
Livro II — A Sombra sobre os Reinos
Com a horda quebrada, os reinos humanos comemoraram. Houve sinos, cerveja e fogueiras nas praças.
Durou três dias.
Na quarta noite, os mortos dos cemitérios se levantaram. Valdren não precisava mais de exército vivo. Agora colhia almas diretamente. E cada uma ia para o Relicário Negro.
Capítulo 7 — O Vale dos Moinhos
O celeiro dos reinos estava em silêncio.
Os trigais continuavam de pé, dourados, sem ninguém para colher. Mas os camponeses andavam entre eles com olhos brancos. Os espantalhos viravam a cabeça quando alguém passava. Ratos corriam em enxames pelas estradas de terra. As pás dos moinhos giravam sem vento.
Hestra contou que ali tinha acontecido a primeira colheita: uma aldeia inteira esvaziada numa só noite.
Quem a ceifou foi Morvane, a Ceifadora. Uma figura alta, de foice, que andava pelo trigo sem pisar nele. Quando ela caiu, deixou para trás uma trilha de luzes pequenas subindo para o céu. Eram as almas da aldeia, finalmente livres.
Capítulo 8 — O Porto de Saltmere
Saltmere estava afundando. Um quarteirão por noite.
As ruas mais baixas já estavam debaixo d'água. Os afogados subiam pelas docas, cobertos de alga. Os navios dos piratas mortos voltavam ao cais com as velas rasgadas. Caranguejos do tamanho de carroças andavam pelo mercado de peixe.
O dono do porto agora era o Capitão Drowse, o Afogado. Ele puxava a cidade inteira para o fundo do mar, para levar as almas consigo.
Quando ele caiu, a cidade parou de afundar. No que sobrou dela, entre os destroços, um bardo encharcado tossia água salgada na areia. Chamava-se Marlow. Tinha se afogado junto com o porto e voltado à praia três dias depois, vivo, sem saber explicar como. A primeira coisa que perguntou foi se alguém mais tinha ouvido a música.
Capítulo 9 — A Catedral de Aurelion
A maior catedral dos reinos foi profanada por dentro.
Os monges cantavam mortos nos bancos. As gárgulas desciam das torres. O sino tocava sozinho à meia-noite, e quem ouvia sentia o coração errar uma batida.
Malachar, o Bispo, tinha aberto as portas para Valdren. Em troca, recebeu a vida eterna que pregou por quarenta anos. Enfrentá-lo era enfrentar um sermão: ele não parava de falar nem enquanto lutava.
Depois que ele caiu, a porta da cripta se abriu. Dela saiu Irmã Celene, ainda de armadura, ainda de pé. Tinha rezado trancada lá embaixo enquanto os irmãos dela se levantavam mortos no andar de cima. A fé dela já não pedia milagres. Pedia só força.
Naquela noite, diante da Chama, Gorran respondeu à pergunta de Kaya. Sim, tinha estado em Frosthollow. Tinha liderado a vanguarda que queimou a vila.
Kaya não o perdoou. Mas, quando partiram de novo, ela seguiu lutando ao lado dele.
Capítulo 10 — O Cemitério Real de Thornwall
Os reis antigos estão enterrados em Thornwall. Valdren os queria de volta, para governar seus mortos.
Esqueletos de armadura marchavam entre as lápides. Cães de ossos farejavam as alamedas. Uma rainha viúva, feita de névoa, chorava pelo marido em cima de um túmulo.
O marido era Aldric, o Rei Coroado em Osso. Tinha sido o monarca mais amado da história dos reinos. Agora levantava a espada contra o próprio povo.
Quando o derrotaram, ele se ajoelhou. Agradeceu.
— Eu não queria acordar.
Capítulo 11 — As Minas de Greydeep
As minas de prata de Greydeep alimentavam as armas dos reinos. Valdren as transformou numa fábrica de corpos.
Os mineiros mortos ainda batiam picaretas na pedra. Golens de prata guardavam os túneis. Morcegos enchiam o teto. No fundo, entre vermes e escuridão, estava Gulmar, o Colosso de Carne. Tinha sido costurado com os mineiros que não conseguiram fugir.
Foi ali que se entendeu o tamanho do que Valdren estava construindo. Ele não queria só almas.
Estava aprendendo a fazer corpos.
Capítulo 12 — A Queda de Valemont
A capital estava cercada.
Catapultas de ossos martelavam as muralhas dia e noite. Cavalaria fantasma rondava os portões. Necromantes de manto cinza cantavam nas colinas. O céu era cinza de fumaça.
Quem conduzia o cerco era Vael, o necromante. Antes da guerra, tinha sido juiz na própria capital. Mandava enforcar inocentes por ouro. Quando os mortos se levantaram, foi o primeiro vivo a se ajoelhar diante de Valdren.
Os defensores da Chama entraram pela muralha leste, junto com o que restava da guarda da cidade. Entre os guardas havia uma caçadora de mortos-vivos chamada Vesper, com uma besta pesada e uma lista de nomes.
No pátio do castelo esperava Sir Gaveth, o Cavaleiro Sem Rosto. Tinha sido o campeão do rei de Valemont. Morreu defendendo o portão, e Valdren o levantou sem rosto, para que ninguém reconhecesse quem ele tinha sido. Ele lutava como o maior cavaleiro do reino. Porque era.
Valemont caiu mesmo assim. Salvaram o que puderam e recuaram pelas estradas do sul, carregando feridos e crianças.
Ao morrer pela segunda vez, Gaveth falou com a própria voz. Contou que Valdren não estava mais nos reinos humanos. Tinha ido para o sul, atrás das raças antigas.
— As almas dos elfos e dos anões duram mais. Ele quer as que duram mais.
Brannok e Sylwen se olharam. Kael-Dum e Lirendel ficavam ao sul.
Livro III — Os Reinos Antigos
Os anões vivem trezentos anos. Os elfos, mais de mil. Para Valdren, cada uma dessas almas valia por uma aldeia humana inteira.
Foi o tempo em que Brannok e Sylwen voltaram para casa. E o tempo em que todos descobriram que casa nenhuma estava a salvo.
Capítulo 13 — Kael-Dum
Brannok voltou à fortaleza onde nasceu. Encontrou as forjas acesas por mãos mortas.
Construtos de ferro patrulhavam salões que ele conhecia de criança. Salamandras nadavam nos canais de lava. Os martelos batiam sozinhos nas bigornas.
No trono de bigornas estava Thorvek, o Rei-Ferreiro. O maior artesão da história anã. Agora forjava armas para o exército de Valdren.
Brannok lutou contra o próprio rei. Depois, sem dizer nada, sem dizer nada, desceu até a câmara das runas e abriu a porta selada.
Do outro lado, sua prima Durgana ergueu os olhos da pedra. Tinha passado meses ali dentro, gravando proteções na parede, sozinha.
— Demorou.
O rei morto a culpava pela queda da fortaleza.
— Tuas runas não salvaram ninguém.
Mas as runas tinham segurado aquela porta.
Capítulo 14 — As Profundezas Fúngicas
Sob as montanhas, as cavernas foram tomadas por uma floresta de cogumelos. Eles brilham no escuro em azul e verde. Trogloditas cegos caçam pelo som. Aranhas tecem teias do tamanho de salões.
O caminho subterrâneo para o oeste tinha uma guardiã: Ysskar, a Rainha-Aranha.
Ela não servia a Valdren por medo. Não servia por promessa. Servia porque ele a alimentava. Foi a primeira inimiga que não fingiu ter razão.
Capítulo 15 — Lirendel
A cidade de cristal de Sylwen estava caindo, torre a torre.
Lirendel sempre teve um canto. Os cristais das torres ecoavam as vozes dos elfos e as devolviam em harmonia, dia e noite, por séculos. Esse canto tinha silenciado. Os elfos que não fugiram estavam corrompidos. Sentinelas de cristal atiravam em quem se aproximava.
Do alto de uma torre caíam flechas violeta. Sylwen reconheceu o jeito de atirar antes de ver o arqueiro. Era Thalion, o Arqueiro Fantasma. Tinha sido o melhor arqueiro da guarda de Lirendel. Tinha sido também o mestre de arco dela.
— Ele me ensinou a respirar antes de soltar a corda.
Ela respirou. E soltou.
Quem governava a cidade agora era Nyssara, a Arquimaga. Ela tinha sido a mestra de Sylwen na juventude. Aceitou a imortalidade de Valdren para não ver Lirendel morrer. E acabou sendo quem a matou.
Sylwen não chorou na luta. Chorou depois, sozinha, na beira da Chama. Quebrou uma flecha de Thalion e guardou a ponta.
Capítulo 16 — As Areias de Osso
No deserto além das montanhas havia um império mais velho que todos os reinos. Ninguém lembra o nome dele. Só restaram as tumbas.
Valdren acordou o que dormia sob a areia. Guerreiros de pó marcharam em fileiras. Tempestades começaram a andar sozinhas. Abutres gigantes giravam sobre as dunas.
Kharrak, o Escorpião-Tumba, guardião das tumbas imperiais, engoliu uma tribo inteira.
Só sobrou uma pessoa. Uma domadora de feras chamada Zhara, montada num leão de juba vermelha que se recusou a morrer. O leão se chama Sahr. Na língua da tribo, quer dizer "o que fica".
Capítulo 17 — As Ilhas Flutuantes de Aerth
Ilhas de pedra flutuam acima das nuvens, ligadas por pontes de corda que balançam na tempestade. É Aerth, o céu dos grifos.
Os grifos estavam corrompidos. Harpias gritavam entre as rochas. Cultistas do trovão rezavam para um céu sempre negro.
A tempestade tinha dono: o Roc, uma ave colossal que Valdren envenenou e que não pousava nunca.
Quando o Roc caiu, o céu de Aerth se abriu pela primeira vez em meses. A luz desceu entre as ilhas. E um cavaleiro elfo, montado no último grifo branco e saudável, se aproximou para agradecer. Chamava-se Aerion. O grifo se chamava Alvor.
Capítulo 18 — O Ninho de Morgrathax
No vulcão ao sul estava o maior segredo de Valdren nas terras antigas.
Ele tinha reerguido um dragão morto havia mil anos: Morgrathax, o Dragão de Ossos. Cultistas o adoravam. Wyverns guardavam os ovos que ele chocava. Ovos de dragões mortos-vivos.
Foi a luta mais longa daquela guerra até então.
Quando o dragão caiu, o vulcão desmoronou sobre os ovos. Nas cinzas, encontraram um mapa gravado em osso. Mostrava um caminho para o norte: um rio, uma floresta sem luz, uma cidade dos mortos e, no fim, uma torre.
Edric reconheceu a torre. Era a de Orvan.
Spoilers: o fim da sagaO Livro IV e o epílogo contam como a história termina. Abra só se quiser saber antes de jogar.
Livro IV — As Terras Mortas
No extremo norte, ao redor da velha torre de Orvan, o sol não nasce mais. É ali que Valdren vive há décadas. As Terras Mortas são o reino dele, e tudo nelas está esperando.
Capítulo 19 — O Rio de Almas
A única entrada é um rio de névoa.
Nele boiam as almas que Valdren colheu e não usou. Elas sussurram nomes. Às vezes, nomes de quem está passando.
Na margem espera o Barqueiro. Ele leva almas de um lado para o outro há séculos. Exigiu pagamento pela travessia. Quando não recebeu, cobrou em sangue.
Depois, uma mulher de manto escuro atravessou o rio sozinha, num barco vazio, e se apresentou. Chamava-se Morra. Tinha sido discípula de Valdren. Tinha acreditado que ele queria vencer a morte para todos. Quando descobriu que ele só queria uma pessoa de volta, e que o preço eram reinos inteiros, fugiu.
E sabia onde estava o Relicário.
Capítulo 20 — A Floresta de Cinza Eterna
Nessa floresta, as árvores são de cinza. Desfazem ao toque. Nada cresce, nada brilha. Lobos de sombra caçam pelo cheiro de calor. Corvos fantasmas pousam em galhos que não deviam aguentar o peso deles.
Rowan sentiu a floresta morta como uma ferida no próprio corpo.
No centro, a Cinza-Que-Anda se ergueu. Um gigante feito de tudo o que queimou ali. Ela caminhou.
Morra contou que aquela floresta já tinha sido verde. Morreu no dia em que Valdren fez o primeiro ritual.
Capítulo 21 — A Necrópole dos Que Esperam
Uma cidade inteira de mortos que não sabem que morreram.
Eles fazem fila diante de portões que nunca abrem. Esperam um julgamento. Carcereiros andam entre as filas. Escribas anotam nomes em livros sem fim.
Quem julga são os Três Juízes, espectros que pesam cada alma e decidem se ela vai para o Relicário.
Quando os Juízes caíram, os portões se abriram. Milhares de almas partiram ao mesmo tempo, como um vento quente atravessando a cidade.
Morra chorou. Ela tinha ajudado a construir aquela cidade.
Capítulo 22 — O Santuário Caído
O caminho levou ao templo original dos Guardiões da Brasa. O lugar de onde Hestra nunca soube a história completa.
O fogo ali era negro. Os guardiões que ficaram para trás, séculos atrás, ainda andavam pelos corredores, corrompidos. Construtos de cinza vigiavam as portas.
No altar ardia o Primeiro Guardião. Aquele que se recusou a abandonar o templo quando ele caiu e foi consumido pelo fogo negro.
Quando ele foi derrotado, algo mudou.
Muito longe dali, na encosta ao sul de Frosthollow, a Chama de Hestra cresceu de repente, alta, e ela se levantou assustada. No altar do templo caído, o fogo negro ficou branco.
O Primeiro Guardião se levantou. Agora era um corpo de cinza quente, que brilhava por dentro como carvão. Não lembrava o próprio nome. Escolheu se chamar Ashen e seguiu com os outros.
Capítulo 23 — A Torre de Orvan
A torre onde tudo começou estava viva.
Livros voavam pelos corredores. Armaduras vigiavam as escadas. Espelhos mostravam memórias: Orvan ensinando, Maelis rindo entre as estantes, um jovem Valdren lendo à luz de vela. Houve até um eco desse Valdren jovem, que ainda não tinha feito nada errado. Enfrentá-lo foi estranho. Ele tinha um rosto bom.
No alto da torre estava Seravel, a Mão de Valdren. Tinha sido aluna daquela mesma torre, a que veio depois de Valdren. Escolheu segui-lo. Agora era a carcereira do próprio mestre. Orvan estava preso numa gaiola de luz, no centro da sala onde Maelis tinha morrido.
Quando Seravel caiu, a gaiola se apagou.
Orvan saiu devagar. Olhou para Edric e balançou a cabeça.
— Eu disse para não me seguir.
Depois olhou para os outros. Para as cicatrizes de uma guerra inteira. E pegou o cajado.
— Vamos terminar isso.
Foi ali, perto do fim, que Kaya fez as pazes com Gorran. Tinha levado a guerra inteira.
Capítulo 24 — A Cidadela do Sem-Sepulcro
A cidadela de Valdren é feita de vidro negro e gelo.
Para chegar ao trono, passaram por ecos dos generais que já tinham vencido: Kargul, Gaveth, Morgrathax. Valdren os refazia com a memória de cada batalha, como quem relê uma carta antiga.
Antes do trono havia uma última guardiã. A Guardiã Pálida: um corpo vazio de mulher, perfeito e sem alma. Era o corpo que Valdren tinha construído para Maelis com as vidas de reinos inteiros. Enfrentá-la foi a coisa mais difícil que Orvan já fez.
No trono, Valdren esperava.
Não era um monstro. Era um homem muito cansado, de pele cinza e olhos que brilhavam como o Relicário Negro que carregava no peito. Olhou para Orvan e disse apenas:
— Você não conseguiu salvá-la. Eu consegui.
E a batalha começou.
Epílogo: a última página
Venceram. Valdren caiu de joelhos, o corpo rachado como vidro.
E então se levantou de novo. Inteiro.
— Vocês não entenderam — disse, quase com pena. — Eu não posso morrer. Ela está aqui dentro. E enquanto ela estiver, eu também estou.
Tocou o Relicário Negro no peito. Lá dentro, uma luz pequena tremulava.
Morra explicou o que só ela sabia. O Relicário só pode ser aberto por dentro. E quem entra não volta.
Ninguém disse nada por um longo tempo.
Orvan deu um passo à frente. Edric segurou o braço dele. O velho tirou a mão do aprendiz com cuidado e disse a última coisa que ia ensinar a ele:
— Um mestre responde pelos erros do aluno. Este é o meu.
Orvan colocou a mão sobre o Relicário e desapareceu dentro dele.
Por um instante, nada aconteceu. Depois o Relicário começou a brilhar branco, de dentro para fora. Rachaduras de luz correram pelo vidro. Valdren gritou e tentou segurá-lo junto ao corpo.
O Relicário se partiu.
Da luz saiu Maelis. Não era um corpo. Era só uma lembrança dela, do jeito que era na biblioteca da torre, com poeira de livro nas mãos. Ela olhou para Valdren. Não havia raiva no rosto dela. Havia tristeza, e alguma coisa parecida com perdão.
— Você devia ter me deixado ir.
E foi.
Valdren ficou olhando o lugar onde ela estivera. Pela primeira vez em décadas, parou de lutar contra a morte. O corpo dele virou pó cinzento, e o vento das Terras Mortas o levou. Não ficou nada para enterrar.
O Sem-Sepulcro continua sem sepulcro.
Orvan não voltou.
Depois
O sol nasceu sobre as Terras Mortas pela primeira vez em décadas. Os mortos que andavam pararam e se deitaram. Os animais amaldiçoados acordaram confusos, de olhos limpos, e voltaram para o mato.
Os sobreviventes voltaram ao santuário. Hestra estava sentada diante da Chama. A Chama estava maior do que nunca: alta, branca, quente como um verão. Ela não perguntou nada. Apontou para o fogo.
Dentro dele, por um momento, todos viram o rosto de um velho de barba branca. Cansado. Em paz.
A Última Chama tem um novo guardião.
E dizem, na encosta, que a Chama ainda faz o que sempre fez: traz de volta os que morreram lutando contra a morte. Dizem que, nas noites em que o norte escurece, um velho de cajado sai do fogo, sacode a cinza do manto e pergunta o que precisa ser feito.
Edric ficou no santuário. Aprende com Hestra a cuidar do fogo. Às vezes, à noite, fala com a Chama como quem fala com um professor.
Os reinos levarão gerações para se reerguer. Kael-Dum volta a forjar. Lirendel volta a cantar. E o Bosque de Elarwen nasce de novo, da semente que Rowan guardou junto ao peito durante toda a guerra.
Mas o norte ainda tem cantos escuros. Há coisas que Valdren acordou e que nunca chegaram a dormir de novo.
A Chama continua acesa.
Por precaução.